O Deus Tartaruga Procurando Nemo  A menina era muito perceptiva quanto às mínimas mudanças de ânimo de sua avó. As pessoas acham que as crianças passam pelas coisas sem notá-las e mesmo tentam tapear os pequerruchos quando algo não vai bem. Mal sabem os adultos que nada passa despercebido aos baixinhos. - Vó? - Oi? - Você está bem? - Claro. - Não está não. - Por que você acha isso? - Não sei. - Mesmo assim você tem certeza que a sua avó não está bem. - Tenho. A velha senhora particularmente não gostava daqueles silêncios quase eternos em que aqueles olhos amendoados ficavam grudados em sua testa. - Sabe o que eu acho? - Hum? - Acho que eu estou um pouco cansada hoje. - Cansada do que? - De nada. - Como assim? Ai meu Deus, pensou a Vovó. - Cansada da vida, meu bem. - Você quer morrer? Não conseguiu conter o riso. - Não, meu bem... Quando a gente está cansada da vida, não significa que a gente queira morrer. Significa só que a gente está muito cansada. A menina fez um muxoxo que a sua avó conhecia muito bem. - Você não entendeu, não é? - Não. - Não faz mal. - Claro que faz mal. - Você fica preocupada? - Fico. - Criança não devia se preocupar com os adultos. - É? - É. - Acontece que criança fica preocupada, sim senhora. - Mas não precisa. - Vai me dizer que você também não se preocupa sem motivo? A avó sentiu que mais uma vez, a vitória no debate era da menina. - OK, você venceu... - Venci o que? - Vou falar o que está me deixando cansada. Olhou para a velha senhora com os olhos vivos. - Tem uma amiga da Vovó que está muito doente. - Quem é? - A Liloca, da venda. - Aquela que está com câncer? Arregalou os olhos para sua neta. - Como é que você sabe? Deu de ombros. - Todo mundo sabe. - Êta gente fofoqueira... Adoram espalhar as más notícias... - Por que a doença da Liloca deixa você cansada? - Porque a gente grande fica triste quando um amigo está doente. - Ela vai morrer? Pensou em soltar um"Vira essa boca para lá, menina", mas boquiabriu-se com a capacidade das crianças de abordar assuntos como a morte com essa naturalidade sábia, de quem está falando de um fato da vida. - Espero que não, meu bem. Ela tem quatro filhos para criar. - A pessoa só pode morrer depois de criar os filhos? - Olha aqui, sua perguntadeira, vamos mudar o rumo dessa prosa. - Por que? - Porque eu quero. Mostrou a língua. - Vou arrancar essa língua fora e vou dar para o gato comer. - Quero só ver. Disfarçou o sorriso, mas a menina percebeu. - Vó? - Oi? - Para que serve o cansaço? - Serve para a gente ficar no colo de Deus. - Como é que é? - É isso mesmo, meu bem. O cansaço serve para a gente se largar um pouco, deixar a vida levar a gente um pouco. - Deixar a vida levar. - Isso. A velha senhora percebeu a discreta aflição que a menina sentia quando não entendia direito a conversa. - Você lembra daquele filme que a Vovó adora? - Qual? (Como se a Vovó não adorasse uns duzentos filmes). - Aquele, do peixinho. - Procurando Nemo ? - Isso! - O que tem? - O peixinho-palhaço passa o filme inteiro procurando pelo seu filho perdido, não é? - Ele não estava perdido. Um panaca de um mergulhador capturou o Nemo. - Isso mesmo... Ele encontra aquela peixinha maluca e vai procurar pelo Nemo; foge de tubarões, de uma mina explodindo, de peixes ferozes, da escuridão do mar... Não foi assim? - Foi. - Ele descobre que vai achar o filho se pegar a Grande Corrente marinha que vai levá-lo ao porto de Sidney, pois o seu filho está nessa cidade. Não foi isso? - Foi. - Até que a minha memória não está tão ruim assim. A menina não lembrou à velha senhora que elas tinham assistido o filme doze vezes, por uma questão de delicadeza. - O que isso tem a ver com Deus? - No filme tem um personagem que me lembra a presença Dele em nossa vida. - Qual? - Crush. - A tartaruga? - Essa mesmo. - O que tem ela? - Tem uma cena muito bonita, quando o peixe palhaço atravessa com a peixinha maluca uma região cheia de águas vivas. Eles vão pulando encima delas como se fossem camas elásticas. Lembra? - Lembro. Eles vão pulando e se queimando. - Finalmente ele consegue atravessar e comemora. Só que ele percebe que a peixinha tinha ficado presa e estava quase morta. Ele volta e a pega debaixo da nadadeira e sai nadando com toda a força. Ele acaba se queimando tanto que desmaia quando consegue sair de lá. - ... - Quando ele acorda, descobre que está encima do casco de uma tartaruga. - A tartaruga é o Crush. - Exato! - E daí? - Crush é uma delícia! Ele tem mais de cem anos, já viu de tudo na vida! - Como você? - Eu não tenho mais de cem anos, sua desaforada! (Risos, de ambas) - Crush ensina para Marlin que o risco faz parte da vida, não adianta ficar se preocupando tanto. - Ele só se preocupava, não é? - Isso! Ele vivia preocupado com seu filho, queria colocá-lo numa redoma de vidro. - E ele acabou num aquário. Flexionou a sobrancelha. - É verdade! Sabe que eu não tinha pensado nisso? - Elementar, minha cara Vovó! - Covenciiiida ... - Vó? - Oi? - O que lembra a presença de Deus? - Deus é a tartaruga, meu bem. - Como assim? - A gente luta, procura, vence as dificuldades da vida. Às vezes, temos que passar por um monte de águas vivas, até desmaiar de cansaço e de dor. - Até chegar na tartaruga. - Não, meu bem. - Como, não? - Quando estamos muito cansados que descobrimos que a tartaruga esteve sempre lá. - A tartaruga está sempre debaixo da gente? - Está. - Vó? - Oi? - Por que a gente não vê o casco da tartaruga? - Porque ele é invisível. A menina pegou alguns bonequinhos, procurando por seus brinquedos e as miniaturas do "Nemo" que ganhara no Natal. Não estava mais preocupada com o cansaço de sua avó. - Vó? - Fala. - Vamos visitar a Liloca? - Claro, meu bem. Depois do almoço, tá bom? - Tá... O beija-flor pairava no ar, e a menina pensou que debaixo dele havia o casco invisível de Crush. No alpendre batia uma brisa mansa, como um sopro empurrando a vida sem nenhuma pressa. "No início de Abril de 2004, minha avó Natalina encerrou sua longa jornada por essa vida. Esse texto é dedicado a ela e às todas as vovós que navegam em cascos de tartaruga." Até a próxima... | | |