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Mente Pequena/Mente Grande

Os Hábitos das Pessoas Altamente Infelizes

Confesso que daquela vez eu estava um pouco apreensiva para a entrevista. No embalo da última conversa, eu acabei abrindo para ele uma questão pessoal de minha vida, provavelmente algo que deixa a minha mente muito pequena.

Não sei se esse era o rumo correto para a nossa série de entrevistas. Ele logo percebeu a minha preocupação e falou que aquele era um ótimo estado de espírito para começarmos, pois ele pretendia mesmo abordar a questão das preocupações nossas de cada dia.

- Não sei se as minhas desventuras amorosas vão servir aos nossos leitores.

- Por que você está dizendo isso?

- Acho que esse não era o foco inicial de nossas conversas.

- E desde quando as nossas conversar tinham um foco específico?

- Não estávamos falando de Mentes grandes e pequenas, das formas de ampliação de consciência para pessoas comuns, que nunca leram nada a respeito?

- Ah, era essa a sua intenção?
Senti a face ruborizada, como uma criança pega fazendo arte.

- Sim senhor.

- Pois fique sabendo que essa é uma intenção bem bacana e que não estamos nos distanciando nem um milímetro dela.

- Se o senhor está dizendo...

- Em nossa última conversa, falamos de vazio, de coisas realizadas e irrealizadas em nossa vida. Eu sei porque acabei de acessar o site onde você está colocando as nossas entrevistas.

- Bom menino.

- Muito obrigado.

- O tema que o senhor escolheu hoje, então, é "como arrumar namorado em sete lições?".

- Quem falou que preciso de sete lições para você conseguir um namorado?
Fiquei de novo ruborizada, como uma menina.

- Desculpe. Não estou querendo parecer indelicada.

- Pois aí está a sua primeira lição, Gafanhoto!

- Como assim?

- Pare de dar esse tratamento trágico para a questão.

- Desculpe, não entendi.

- Uma característica de todos os problemas insolúveis é que levamos os problemas muito a sério.

- Como é que eles podem ser sérios, se não pudermos achá-los sérios?

- Essa é uma ótima pergunta, Gafanhoto... Mas ela pode ser invertida: como é que os problemas podem continuar sérios, se deixarmos de achá-los assim?

O velho tem respostas para tudo, mesmo. Ele prosseguiu, feliz da vida:

- É isso que eu chamo de:

"Os Hábitos das Pessoas Altamente Infelizes".

Não pude deixar de rir da paródia de títulos de livros de auto-ajuda.

- O senhor poderia escrever um livro de fórmulas para atingir a Infelicidade?

- Não iria vender muito, mas eu poderia tentar.

- As pessoas preferem comprar a felicidade?

- Não, meu bem. As pessoas são muito capazes de gerir a própria infelicidade. Não sei se eu iria poder com a concorrência. (Risos)

- Mas qual a fórmula mais eficaz para atingir a Infelicidade? Os problemas muito sérios?

- Acho que as pessoas conseguem uma fórmula muito mais antiga que essa.

- Qual a fórmula infalível para atingirmos a Infelicidade, mestre?

- É uma fórmula com essa equação: "Não é isso que eu queria!".

Esbocei um sorriso. Entendi perfeitamente de que ele estava falando.

- Não vai perguntar nada?

- Espere um pouco, divino mestre.

- Sim, Gafanhoto.

- Parece-me familiar esta fórmula.

- Continue, minha filha.

- Basta olhar para a sua vida e pensar: não era assim que eu tinha planejado, não era assim que estava escrito no conto-de-fadas. Essa é a fórmula. Estou certa, amado mestre?

- Eu não faria melhor, minha pupila.

- Mas as pessoas continuam insatisfeitas.

- Claro.

- E como diminuir a insatisfação? - Pelo menos você pode começar não aumentando a sua coleção de insatisfações.

- Não entendi.

- Sabe onde está o diabo, meu bem?

- Onde?

- O diabo está sempre no "O Ideal".

- E Deus?

- Deus está no que É.

- Como assim?

- Imagine que a vida seja sagrada.

- ...

- Imagine que o Real seja sagrado.

- Isso significa que...

- Isso significa que o homem real é muito melhor do que o Ideal.

Só se for para ele, pensei.

- Pense numa coisa, meu bem.

- Estou ouvindo.

- O Ideal é inimigo do Real. Uma fonte segura de insatisfação e tristeza é o Ideal. Ele que gera o "Não-é-isso-que-eu-queria".

- Não devemos querer, então, como dizem os budistas?

- E quem disse que os budistas mandam não querer?

- Eles dizem que o sofrimento está no desejo.

- Incorreto, meu bem.

- É o que eles dizem.

Riu-se da minha teimosia.

- Se você não tiver desejos, ou necessidades, porque vai sair de sua cama para entrevistar esse velho aqui, menina?

- Não devemos levar o desejo a sério demais, como o senhor falou no início da entrevista?

- Você é uma ótima aluna.

- Muito obrigada.

- O desejo ruim é o desejo fixado.

- Prossiga, por favor. Tomou um gole dá água para fazer suspense e me deixar louca.

- Quando você vai para a vida com todas as idéias fixadas do que você quer, quando e onde você quer, terá garantido o seu passaporte para a Infelicidade.

Olhei para ele com os olhos acesos. Ele bebeu um pouco mais de sua água.

- Quando você olha para um homem e já pesa, mede e imagina se ele entra bem em um fraque de noivo, vai paralisar todas as outras possibilidades.

- (Em tom de brincadeira) Há outras possibilidades?

- (Risos) Há a possibilidade de dançar com ele.

- Dançar com ele?

- Claro, meu bem... O que mais é a vida do que uma longa dança com as possibilidades?

... Acho que enrubesci mais uma vez, isso estava virando uma constante em nossas entrevistas.

- O amado mestre está insinuando que eu, uma moça intelectualizada, descolada e vitaminada, só penso em casamento, como uma leitora média de Revista Contigo?

- Sim, Gafanhoto. Exatamente.

- (Risos) Mas como dançar com as possibilidades enquanto tudo é uma espera longa demais?

- Dance enquanto espera, meu bem. Pois, como dizia um velho poeta, "Tudo Dança".

Continuei sorrindo, mas desta vez encerrei a conversa com várias pulgas atrás da orelha.

- Deixe-me ver se eu entendi, mestre: quais são as formas mais diretas de atingirmos a tão sonhada Infelicidade?

- Vamos lá, muita calma nessa hora: antes de mais nada, você deve levar os seus problemas muito a sério. Imagine que cada problema de sua vida é uma grande injustiça, causada pelos outros, e que quanto mais você reclamar, piores os problemas vão ficar...

- É muito importante a reclamação...

- Importantíssimo! Reclamar, e mais ainda, importante é não fazer nada a respeito. Reclamar, reclamar e sentir a maior infelicidade de todo o mundo... Quem é infeliz é sempre o Mais Infeliz De Todos Infelizes.

- Correto. O primeiro passo é O Levar a Sério.

- Levar Tudo Muito a Sério. É uma característica universal das pessoas altamente infelizes.

- Além disso, a pessoa que quer atingir a infelicidade deve ficar fixada no que não consegue realizar...

- Exato.

- Em vez de aproveitar o que É, pensa o tempo todo no que Deveria Ser.

- Eu falo que você é ótima aluna...

- O meu mestre é que é dez...

- Mas continuemos, minha querida, para além dessa rasgação de seda...

- (Risos) Continuemos... As pessoas altamente infelizes levam seus problemas muito a sério, cometem sempre os mesmo erros e acham que a vida é uma graaaannnde e irrevogável infelicidade.

- Mais uma coisa.

- Sim?

- As pessoas infelizes não sabem dançar. O riso estancou no meu rosto.

- Acho que eu não sei dançar.

- Não concordo, meu bem.

- Como, não concorda?

- A nossa entrevista tem sido uma bela dança.

- Porque o senhor não é candidato a marido.

- Como não? Gaguejei.

- Desculpe. O senhor daria um ótimo marido.

- Eu entendi, querida. Estou só brincando um pouco, para você não levar tudo tão a sério...

Ele sempre fazia isso. Não é à toa que eu estava sempre enrubescendo em sua presença. Encerramos a nossa entrevista e eu guiei até a minha casa muito pensativa, lembrando de cenas do tipo Animal Planet, onde os bichos dançavam longas coreografias antes do acasalamento. Pensei na vida como uma dança onde você prepara as coisas que vão acontecer enquanto aproveita as que não acontecem...

Mal posso esperar para continuar esta entrevista......

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Autor(a) Texto: Marco Antonio Spinelli
Autor(a) da Imagem:
Música e Autor(a):
Colaboração: Marco Antonio Spinelli
 
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