| Mente Pequena/Mente Grande O Espaço Entre as Palavras Não sei definir ao certo os meus sentimentos enquanto me guiava até a casa do velho mestre. Não estava mais apreensiva por ter me tornado, de certa forma, objeto de nossas entrevistas, uma cobaia através da qual o leitor poderia se enxergar. Isso, jornalisticamente, é uma temeridade, mas não seria este o incômodo. Estava, antes, com uma discreta sensação de alegria e mesmo de esperança, como se o que estivéssemos conversando pudesse ajudar a muitas pessoas que tem me enviado e-mails sem ao menos saber o meu nome. Pois aqui vai: meu nome é Miriam, e o leitor pode me enviar mensagens no maspi@terra.com.br para fazer as perguntas que se multiplicam em minha cabeça nessa série de conversas. O velho mestre notou que eu estava mais tranqüila para essa nossa entrevista, como estabelecendo com ele uma sintonia mais fina. A nossa conversa demorou a começar, como se saboreássemos aquela calma suave de início de contato. Parece que vivemos num mundo completamente avesso à calma. - E então? - E então, o que? - Já arrumou namorado? Rimos gostosamente. - Ainda não. - Que pena. - Mas não estou sofrendo tanto com isso. - Esse é um ótimo começo. Pronto. Algumas frases, algumas brincadeiras e já estávamos no miolo do assunto. Parece que ele faz de propósito. - Como assim, um ótimo começo? - Ora, Gafanhoto ! Do que falávamos na última entrevista? - De mim? - Não, egocêntrica! Falamos das pessoas altamente infelizes. - Então... (Risos). - Falamos das formas de se atingir a Infelicidade. - Lembro bem da fórmula mágica: "Não é o que eu queria." - Exato. - O que isso tem a ver comigo? - Você está sofrendo menos. - De fato. - Você parou de viver chorando o Irrealizado. - O que? - Você parou com um hábito importantíssimo das pessoas altamente infelizes. - Que é...??? - Sentir muita peninha de si própria. (Fez uma careta teatral) Oh, meu Deus, por que eu não consigo?! Como eu sou infeliz! Estão todos contra mim... (Expressão falsamente brava no rosto). - O senhor está insinuando... De pronto ele resmungou... - Não estou insinuando nada. - O senhor está querendo insinuar que eu faço drama? - Claro que não! Longe de mim... Silêncio. Longo. Longuíssimo. Ele perguntou, com olhos acesos: - Mas você faz drama? - Claro que faço. Risos. - Imagine que estamos diante de uma muralha. - OK. - Se a gente olha para a muralha com o coração apertado, ela não parece mais alta? - Sim. Mas isso não nos impede... - Não nos impede de ter um xilique diante da muralha. - Isso. - Imagine uma imagem linda dos budistas. - O que? - Imagine o espaço entre as palavras. - Como assim? - Imagine que entre as palavras, o palavrório que a gente produz o tempo todo, há um espaço entre as palavras. Gostei da brincadeira. Imaginei as minhas palavras flutuando no espaço, e o espaço entre elas aumentando e diminuindo, aumentando e diminuindo... - Conseguiu? - Acho que sim. - Imagine que, quando estamos tensos, preocupados, as palavras ficam bem juntas. - Como uma muralha? - Como uma muralha... Não há fresta entre as palavras. Tudo fica muito sério e sem saída. - A mente fica pequena. - Exato, Gafanhoto! - A mente não consegue enxergar nenhuma saída. - As frases viram frases-muralha. - Frases-muralha? - Frases-muralha... Não é possível. Não vou conseguir. Não vai dar. - Seja realista. - Muito bem, querida. É isso mesmo. - As frases muralha pertencem a pessoas com as Mentes-muralha. - Gostei da expressão. - Por que as pessoas gostam tanto de muralhas, mestre? - As pessoas gostam de sistemas fechados. As Mentes Pequenas gostam de sistemas fechados. - Porque eles são mais fáceis de controlar. - Exatamente. Silenciei um pouco, digerindo toda aquela informação. Ele percebeu que algo me atingira no estômago, algo me vestira a carapuça. Ele me deu um tempo para formular minha pergunta. - Como isso se dá em minha vida? Ele sorriu e parou, escolhendo as palavras: - Quando você começa a conhecer alguém, isso não te assusta? A pergunta me pegou de chofre. - Como assim? - Sempre que você precisa ganhar tempo, me pergunta: "Como assim?". - Como assim? Risos. - Geralmente, quando começa a dar certo, eu fico assustada, sim senhor. - Você fica com medo. - (Suspiro) Fico. - Do que você tem medo? - De tudo. - Tudo o que? - Tudo... Medo que dê certo, medo que dê errado... Medo de ter, medo de perder... Todos os medos descritos nos manuais, todos aqueles que nos recomendam não ter... - O que acontece depois? - Depois do que? - Depois que o medo se instala... - Depois que eu fico com medo, aí fica tudo muito fácil: eu faço tudo errado, tentando fazer só o certo, e o cara desaparece. - Este é um bom jeito de dar errado. - Nem me fale. É praticamente infalível. - Você não entendeu. O melhor jeito de dar errado é fazer tudo para dar certo. - Mas a gente sempre tenta fazer dar certo. - O que dificilmente funciona... - Mas como sair disso? Devo ter ficado com olhos muito aflitos, porque ele me olhou com grande ternura. - Esta é uma boa pergunta: o que fazer? - Sim, senhor. O que fazer? - Comece mudando a pergunta: o que não fazer? - Legal. O que não fazer? - Não espere que as palavras se abram se você está em dor. - ... - Calma. Vou explicar: quando os caras se aproximam, sabe qual a primeira emoção que você tem? - O medo? - Não. A dor. - Dor do que? - Você que me diga. Baixei a cabeça. Claro que eu sabia do que ele estava falando. - Quando o homem se aproxima, eu lembro de todos os outros que me machucaram. - Muito bem. É isso mesmo. - Como posso evitar a dor? - Para começo de conversa, parando de evitá-la. - É fácil falar. - Sim.É mais fácil falar do que fazer; e tem mais uma coisa. - O que? - Pare de sentir tanta peninha de você por estar sozinha. Você não é nenhuma coitadinha. - O SENHOR ESTÁ INSINUANDO... - Não. Estou afirmando. Risos. - O senhor está afirmando. - Estou afirmando, solenemente, que quando alguém se interessa por você, imediatamente evoca sentimentos de dor, raiva e auto-piedade que impedem qualquer dança relacional entre a garota e o garoto. - Então o que não fazer? - Não fique se escondendo de seus sentimentos, menina! Olhe na cara deles e diga: é com vocês que eu vou, seus encostos! E vocês não vão me atrapalhar desta vez! Era para eu ficar brava, mas pasme o leitor que aquilo me infundiu uma discreta sensação de coragem. - Ofereça-se para a vida, meu bem. Olhei para ele, agradecendo por não estar sendo filmada, pois meus olhos estavam marejados. - Procure pelas brechas do muro. Procure pelas possibilidades infinitas. Pare de olhar para as muralhas da mente, pois elas só existem lá. - Lá, aonde? - Lá na sua mente. Em nenhum outro lugar. - Mas... Mas... - Não tem mas, nem menos. Vai para a sua casa, transcreva esta fita e pense no que eu te falei. Mil vezes, Gafanhoto, até entrar nessa cabecinha dura... Bateu com os nós dos dedos na minha cabeça, como que fazendo toc,toc em uma madeira oca. Só faltou me chamar de covarde. Vocês pensam que eu fiquei decepcionada, ou triste? Claro que não. Saí de lá sentindo que recebera uma transfusão de vida. Quando eu guiava para casa, olhava para o espaço entre as coisas, como se eles se abrissem para mim. .... Até Semana que vem com mais uma entrevista... |