Mudando o Mundo ou a Si Mesmo ?
Recebi e-mail de um de nossos amigos da comunidade Sorria.com.br que me dizia ter ficado curioso com um dos pensamentos posto neste portal,
"Todos querem mudar o mundo, entretanto ninguém quer mudar a si mesmo".
Por conseguinte me perguntava: O que é mais importante, mudar o mundo ou a si mesmo?
Penso que todos nós, humanos, habitamos o mundo e exercemos nossa subjetividade nos mais diversos campos em que o mundo social se manifesta, seja em nossas famílias, nas escolas, no trabalho, na cidade, no Estado, enfim na sociedade.
Embora sejamos "seres sociais", as pessoas, cada vez mais se enclausuram dentro de si mesmas e buscam alternativas individuais para os conflitos que atingem a maioria dos homens, mulheres, jovens, crianças...
É paradoxal que, embora, sejamos seres sociais, agimos de modo a favorecer nosso individualismo.
Ainda que possa parecer uma pergunta absurda, vale a pena nos perguntarmos, será a superfície de nossa pele, a camada responsável pela distinção entre o "eu" e o mundo?
Fomos constituídos independente do mundo e poderemos viver independente dele?
Quero contar a vocês a história de um personagem que pode nos ajudar a pensar a possibilidade de nos desenvolvermos, enquanto humanos, sem que com isso, tenhamos que nos isolarmos dentro de nós mesmos.
Num reino muito distante havia um príncipe que vivia em seu palácio rodeado de luxo e conforto, casou-se bem jovem com uma linda princesa e vivia muito feliz.
Embora feliz e satisfeito, sua vida ficava circunscrita aos limites de seu palácio.
Curioso por saber o que existia além dos portões de sua suntuosa residência, empreende uma viagem e se confronta subitamente com a realidade da vida e com o sofrimento das pessoas por onde passava.
Esta realidade o toca profundamente e a partir de então, passa a refletir sobre o por quê dos sofrimentos humanos.
Convencido de que as respostas não seriam encontradas dentro de seu palácio, sai em busca de sabedoria.
Senta-se debaixo de uma árvore e decide que não comeria nem sairia dali, até que atingisse o grau de sabedoria desejado.
Depois de longo período, isolado em si mesmo e debilitado pelo jejum, descobre que a morte de seu corpo e a solidão não poderia ajudá-lo a atingir a sabedoria que procurava.
Abandona este estado e funda um primeiro conceito de sua doutrina, "O Caminho Intermediário".
Estamos falando de um príncipe que viveu na Índia no século VI A.C. chamado Sidarta Gautama, o Buda.
Os ensinamentos advindos de Buda e de seus discípulos apontarão que embora possuamos consciência de nossa individualidade, este nível de consciência deve ser transcendido para um sentimento de unidade com todos os seres e criações do universo.
O príncipe ao atingir o estado de iluminação que desejava, experenciou uma profunda transformação interna e resolveu dividir seus conhecimentos com outras pessoas.
Seus seguidores tornaram-se cada vez mais numerosos e o budismo se transformou num importante sistema ético, religioso e filosófico do oriente, influenciando grande parte do planeta.
Talvez esta história possa, de alguma forma, nos ajudar a pensar que indivíduos e sociedades afetam-se mutuamente.
As questões que motivaram a transformação do príncipe em Buda, partiram, num primeiro momento, de algo que era exterior à vida deste, no entanto, sua singularidade fora tocada.
Por outro lado, ao atingir a condição de Buda, este não retorna ao seu palácio, muito pelo contrário, orienta seus conhecimentos para as realidades humanas, pois estas oferecem excelente oportunidade de exercício de seus ensinamentos e de desenvolvimento.
Portanto, ao retomar a questão posta por nosso amigo, creio que a transformação do mundo e de si mesmo, só é possível se empreendida no âmbito da relação existente entre indivíduos e sociedade, e jamais isoladamente em algum dos pólos.
Semana que vem tem mais, não perca...