| Mente Pequena/Mente Grande Eu Não Procuro, Eu Acho... O dia estava pálido, com o primeiro frio de Outono chegando. Eu saíra da nossa última conversa encorajada, mas ainda um pouco desconcertada de ser a cobaia de minha própria entrevista. Agora havia milhares de pessoas atentas à minha vida afetiva lendo essas páginas na www.sorria.com.br . Eu repassara as nossas últimas entrevistas e ainda ria de nossos "Segredos das Pessoas Altamente Infelizes". O velho mestre era ácido com esse culto à felicidade obrigatória de nossos dias, e me dizia entre um gole e outro de seu gostoso chá de erva cidreira, colhida em seu quintal, que essa obrigação de ser feliz fabricava multidões de infelizes todos os dias, olhando nas tvs o que lhes falta para atingir o tão falso como sonhado sucesso. Mas esta é outra história, que vai ficar para um próximo ciclo de entrevistas. - Bom dia, mestre. - Oi, querida. Como você vai? - Vou indo. - ... - Não vai me perguntar se eu já arrumei namorado? - Não. Risos, como o tom brincalhão e sua expressão de criança fazendo arte ao responder. - Ufa... - Ufa, o que? - Ufa... Você não vai me perguntar se arrumei namorado ou não. - Quem disse que eu não vou perguntar? Risos. - Pode perguntar. Estou pronta. - Pronta para o que? - Pronta para responder sobre a minha vida afetiva. - Este é o seu objetivo, Gafanhoto? - Qual? - Arrumar o tal namorado? Suspirei. Profundamente. - É muito feio ter esse objetivo? - Atenção! Atenção, Gafanhoto! - (Surpresa) O que foi? - Qual foi a pergunta que eu te fiz? - Não me lembro. - Pois lembre! Fiquei surpresa com o tom severo de sua voz. - Veja bem, professor, eu sou a jornalista, eu faço as perguntas por aqui... - Qual foi a pergunta, Miriam? Agora ficou sério. Foi a primeira vez que ele me chamou pelo nome. - O senhor me perguntou se meu objetivo era arrumar um namorado. - Isso! - Então... - O seu objetivo é arrumar um namorado? - É, p... (soltei um palavrão que vocês podem imaginar) - (Risos) Que bom. Pensei que eu estava aqui perdendo o meu tempo. Onde eu fui amarrar o meu burro, vocês não acham? Além de tudo, tenho que aturar gozação. - Esse é um bom tema para começarmos. - Qual? - Porque as pessoas relutam em admitir isso. - Isso o que? - As pessoas relutam em admitir seus desejos. - Acho que sim. - Relutam ainda mais em admitir que seus desejos possam virar objetivos. - Continue... - O tema que eu te proporia é: Por que o que as pessoas mais procuram... - É o que menos acabam achando? - Isso. Muito bem, Gafanhoto. - Obrigada. - Não por isso. - Como o senhor colocaria isso num título? - Colocaria assim: "Quem procura, sempre acaba desachando". - Como é?! Desachando? - Exato. Desachando. - Esta palavra não existe. - Melhor ainda. - O que quer dizer? - Quer dizer que a Mente Pequena procura. A Mente Grande acha. - Fale um pouco mais sobre isso. - A Mente Pequena procura, sofre e se esforça tanto... Veja, coitada de mim, eu faço tudo certo, mas as coisas não acontecem para mim! Sempre dou o melhor, sempre faço o que me disseram ser o correto, mas a sorte não bate à minha porta! Coitada de mim... - Não entendi essa parte... O senhor está afirmando que a Mente Pequena gosta de procurar para não achar? - Menina esperta. Estou dizendo isso mesmo. - Mas qual o objetivo disso? - Um objetivo que está no Inconsciente da Mente que gosta de se apequenar, meu bem: o manto protetor do fracasso. Aquele velho estava começando a me ofender. - Como assim? O fracasso é protetor? - Claro que é. Não há nada mais protetor do que fracassar. - Por que? - Porque o fracasso é nosso velho conhecido. Não há nada de novo em fracassar, em não conseguir aquilo que nós queremos. Difícil é consentir com o sucesso meu bem. - Como assim, consentir com o sucesso? - Para ultrapassar a barreira do Irrealizado, precisamos achar o sucesso uma coisa natural, meu bem. Uma coisa que podemos simplesmente permitir que aconteça. - A Mente Pequena não permite que as coisas dêem certo? - Claro que não. - Para que? - Para não perder o seu passatempo preferido... - Que é a Infelicidade. - Exato. - Isso é uma contradição, não é? - Qual? - Temer tanto a Infelicidade que sempre a procuramos o tempo todo? - Não é mesmo? - Mas qual a melhor forma de nunca atingirmos um objetivo? - A melhor forma de nunca se atingir um objetivo é não reconhecermos que o temos. - Por exemplo... - Por exemplo, querer um namorado... - Mas não reconhecer que o quero. - Isso mesmo. - É feio reconhecer que algo nos falta, não é? - Sim. É feio. As pessoas agem como se nada lhes faltasse, o tempo todo. Lutar por um objetivo é uma coisa muito feia. - Mas eu continuo sem entender algo. - O que? - Esse seu título: o que quer dizer: "Quem procura, sempre acaba desachando"? - Significa que a Mente Pequena está sempre obcecada pela procura, para não ter que achar nada. - Agora que eu não entendi de vez. - Por exemplo: um método infalível é a obsessão pelo o que lhe falta. - Como pensar o dia inteiro: por que eu não consigo? - Isso. Pensar e falar o dia inteiro no que você não consegue. - Fale mais sobre isso. - Eu não. Fale você. - O que? - Quando aparece um cara legal. Um sério candidato a Príncipe Encantado. - (Suspiro) Não existe Príncipe Encantado. - Falamos sobre isso depois... Não fuja à pergunta: aparece um sério candidato a Príncipe Encantado, o que você faz? - Faço o de sempre: gaguejo, ignoro, faço como se ele não existisse e , de preferência, fujo pela janela quando ele está distraído. Silenciou e ficou me fitando com um ar enternecido. - Acho que entendi. - Entendeu o que? - Quando a Mente Pequena fica obcecada por um objetivo, faz de tudo para atrapalhar tudo antes que qualquer coisa possa acontecer. - Muito bem, Míriam. Muito bem. - Se o senhor não se incomodar, eu prefiro ser chamada de Gafanhoto. Ele riu gostosamente. E me ofereceu outro chá. .. Até Semana que vem com a continuação desta gostosa entrevista... Dr. Sandro está no Livro Stress o Coelho de Alice tem sempre muita pressa, de autoria do Dr Marco Spinelli. Não deixe de saber mais sobre este fabuloso médico... Outras Matérias de Marco Antonio Spinelli [_OUTRAS_OBRAS_] | |