| Mente Pequena/Mente Grande Procuro onde não acho. Acho onde não procuro... Agora eu me lembro que, em nosso projeto inicial, faríamos uma série de quatro entrevistas curtas com o velho mestre, apenas para uma ilustração ao leitor de seu imenso saber. Essas entrevistas seriam compiladas e publicadas em uma só, provavelmente na Internet, pois não tínhamos achado um bom lugar na mídia impressa para publicá-las. Acho que a minha Mente tem estado maior (gostaria de dizer que ela está "Mais Grande", como fala o meu sobrinho de cinco anos), pois eu já tinha perdido a noção de quantas entrevistas acabaríamos por fazer. Eu não estava mais preocupada com o fim, isso era um bom sinal, já que muito das entrevistas mostravam o quanto nossos excessos de intencionalidade tornam nossas mentes muito pequenas. Entretanto, a idéia de que aquilo iria uma hora ou outra terminar começou a entrar em mim, como uma coceira. O mestre, para variar, parece ler os meus pensamentos. - Gostaria de continuar desde aonde paramos em nossa última conversa... - Bom dia para você também, Gafanhoto. - Bom dia, querido. - De qual ponto da última conversa? - Do ponto em que a Mente Pequena procura para não achar. - Sim. - Nós exploramos o que a Mente Pequena faz para não achar o que procura. - Não, meu bem... - Não? - Não... Não falamos que a Mente Pequena faz algo para não achar o que procura. - O que ela faz, então? - A Mente Pequena corre para não chegar, tenta para não conseguir. - E qual o método para atingir sempre o fracasso? - Há um método muito simples. - Sim? - O método mais antigo para atingir o fracasso é fazer muita força. - Mas todo objetivo demanda algum esforço. - Algum é diferente de muito. A Mente Pequena faz TANTA força que sempre cansa antes do fim da corrida. Fiquei um tempo pensativa. De fato, tudo o que fazemos com esforço excessivo, dá errado. Até fazer amor. Até procurar namorado. - Você conhece a famosa frase do Novo Testamento, "Procures e acharás"? - Claro. O senhor está revogando essa frase, não está? - Como? - O senhor não está cunhando a frase "Procures e Não acharás"? - Eu na tinha pensado nisso. Olhei para ele com cara de aluna que surpreendeu o mestre. Um aluna muito sabida. - A bem da verdade, Gafanhoto, não acho que o problema esteja em procurar, mas onde procurar. Nem deu tempo de saborear o meu triunfo. - Como assim, mestre? - Eu poderia reformular a lei da seguinte forma: "Procuro onde eu não acho. Acho onde eu não procuro". - Pronto. Embananou de vez. - (Risos) Vamos falar da primeira parte da frase, para ficar didático. - Isso. Como seu eu fosse uma menina de sete anos. - Eu calculava uns cinco anos... - Ora, seu... Dei-lhe uns tapas. Ele riu como um menino pego fazendo arte. - Vamos à nossa primeira receita do nossos "Passos para o Insucesso": Procures aonde não vais achar nada. - Como podemos procurar para não achar, amado guru? - Comece repetindo os mesmos erros, com as mesmas pessoas. Fiquei séria, rapidamente. Aquele velho estava colocando um detetive atrás de mim? - O que o senhor está dizendo? - Ora, Gafanhoto. No caso de tentar arrumar um companheiro, ou um namorado: insista com o homem que nunca dá certo. - O senhor lê pensamentos? - Por que? - Ontem eu saí com meu ex... Ficamos juntos, a noite estava ótima, no fim brigamos pelos mesmos motivos que nos levaram a romper o namoro, eu fui para a cama chorando... - Que pena, Gafanhoto ... Não sabia que o exemplo estava tão recente em sua vida. Fiquei um tempo olhando para o mestre, para ver se estava me gozando. Não estava. Ele não brincava com as coisas que me doíam, sempre serei grata a ele por esta sensibilidade. - Um jeito bom de procurar para não achar é dar o murro na mesma ponta de faca, meu bem... Tentar reformar o Velho é mais reconfortante do que se abrir para o Novo. Dá para entender isso? - Olha, meu querido, hoje dá para entender isso muito bem. - (Risos) Mas existe uma outra fórmula infalível para procurar e não achar. - O que é? - Preste atenção, Gafanhoto... Onde fica o lugar em que você procura, procura e nunca acha? Fiz um minuto de suspense fingido. - Não faço a menor idéia. - Quer pedir ajuda aos universitários? - Por favor, meu universitário, onde fica a procura que nunca acha? - No Ideal, meu bem. Elementar, minha cara Gafanhoto, elementar... O lugar que procuramos para nunca achar é no lugar do Ideal! Você procura, procura pelo Homem Ideal, e o que encontra? - Eu só encontro tranqueiras! Devo ter falado do fundo do coração, pois ele explodiu em gargalhada. - Eu procuro o homem Ideal, mesmo sabendo que ele não existe. - Sabe qual o contrário do Ideal? - Não. - O Real. - O senhor está insinuando que eu começo a namorar e tento transformar o Homem Real em um Homem Ideal? - Eu não tinha pensado nisso, mas a idéia é boa. - Pois é claro, meu querido! É Claro! Nós mulheres vivemos chorando pela falta do Homem Ideal, quando não temos namorado, e depois choramos porque o nosso homem não é o Ideal, quando estamos namorando! - Muito obrigado pelo seu depoimento, cara pupila! Atingimos a fórmula final do Insucesso! - Exatamente! A fórmula do Insucesso é "Reclame sempre, de tudo!" Ele me abraçou e saiu desfilando comigo pela sala, como se tivéssemos marcado o gol da final da Copa do Mundo. Cantava a música antiga do programa Sílvio Santos. Eu ria para não chorar. Desta vez, a carapuça tinha servido. Voltamos para o escritório, ele preparou um chá com a água quente da garrafa térmica. Eu não deixei o assunto, nem o chá, esfriarem. - Acho que estamos chegando em um ponto que já passamos antes. - Sim. - A questão de viver no Real, ou no Imaginário. - Freud dizia que uma das tarefas da Psicanálise é trazer o paciente ao Real. - Acho que estou entendo um pouco melhor essa idéia. - Que bom. - Mas o que quer dizer a segunda parte da frase? - Qual frase? Procurei nas minhas anotações. - Procuro onde não acho... - Acho onde eu não procuro. - Exato. - O que você quer saber? - Isso não inverte a frase bíblica? - Como assim? - "Não Procures e Acharás"? Riu gostosamente. - Acho que você tem razão. A idéia é quase esta, mesmo. - Isso tem a ver com o esforço, com procura demais? - Sim. Mas é mais do que isso. - Sou toda ouvidos. - Um jeito de achar, meu bem, é parar de procurar. - Devo, por exemplo, para de procurar por um namorado? - Sim. - Devo desistir da busca? - Claro que não. - Não entendi nada. - Desista da falsa procura. - E o senhor imagina que eu e os leitores sabemos exatamente a diferença entre procura falsa e verdadeira... - (Risos) Quando você vai a algum lugar, alguma festa, no que você pensa? - Penso se vou encontrar alguém interessante. - E daí... - Daí eu vou para a festa cheia de esperança. - Não, meu bem. - Como? - Não. Você não vai cheia de esperança. Você vai cheia de esperança/desesperança. - Que viria a ser? - Viria a ser um estado onde você tem esperança de viver uma história de amor nova, mas também morreria de medo de se decepcionar. Você leva a lembrança do que não se realizou. - Esta é a Mente Pequena. - Esta é EXATAMENTE a Mente Pequena. - Fracasso porque tenho medo de fracassar. - Isso! Isso mesmo. - O que faria a Mente Grande? - A Mente Grande para de procurar pelo muro. Procura pelo horizonte. - Estou ouvindo. - A Mente Grande está aberta às possibilidades. A festa para ela é algo muito maior do que encontrar ou não alguém. Jogar é muito mais do que ganhar ou perder. - Isso é muito fácil de falar. - Você tem toda razão. É mais fácil dar com a cabeça no muro do que continuar procurando para a linha do horizonte, não é? É mais fácil interromper o jogo do que jogar com as cartas que temos nas mãos. - E se as minhas cartas forem muito ruins? - E se não for a sua tarefa decidir se as suas cartas são tão ruins assim? Responda uma coisa, Miriam... - Sim? - Do que você tem mais medo: de ter as cartas muito ruins, ou de não saber jogar com as cartas que você tem? Esta acertou em cheio. - E se eu não souber jogar? - E como você espera aprender? Detesto quando ele responde à minha pergunta com outra pergunta. - Acho que estou entendo. - O que? - Estou entendendo a falsa procura. - Então explique para os leitores. - A falsa procura é jogar para mostrar ao mundo que eu estou me esforçando muito, muito, muito e, apesar de fazer tudo direitinho, dá tudo errado. - Bingo! - Mas como sair disso? - Você está mostrando o seu esforço para quem? - Como? - Para quem você está mostrando que se esforça, se esforça e não consegue? - Sei lá... Para o mundo... - É para o mundo que você quer mostrar um namorado perfeito? Aquela conversa estava me deixando atordoada. - Não me venha com os seus "Como assim?" Responda. - Como assim? - (Não achou graça) Para que torcida você está jogando, Miriam? - Não sei, caramba! - Você quer um conselho de amigo? - Quero. - Procure alguém que aqueça sua vida. Pare de pensar no "que-vão-pensar". E abra seu coração para valer. - O senhor está dizendo que meu coração não está aberto? - Sim, meu bem. É exatamente isso que eu estou dizendo. - A culpa é minha, então... - Pare de procurar pelos culpados. Procure pelos erros que sempre se repetem. E pare de cometê-los. - Isso não é fácil. - Eu nunca te falei que seria fácil. - Como se faz para abrir o coração? - Acho que está na hora de você reler todas as nossas entrevistas, que você vai encontrar várias dicas. Acho que é um bom momento para fazê-lo,agora que estamos acabando. Fiz menção de protestar e de perguntar mais alguma coisa, mas interrompi o meu próprio movimento. Demorei um tempo para entender a última frase, meio atordoada com o ritmo vertiginoso da conversa. Mas uma pontada passou rápida pelo meu coração. - O que o senhor quer dizer com isso? - Isso o que? - O que o senhor quer dizer com "Agora que estamos acabando"? - Eu disse que já estamos encerrando esta entrevista. Suspirei profundamente, de alívio. Ele tocou a minha mão, como meu pai faria. - Estamos também fechando o ciclo de nossas entrevistas, meu bem... - O senhor está brincando? Ainda tenho um monte de coisas para perguntar... - Já falamos bastante, Gafanhoto... Falar mais só vai cansar os leitores. Reveja nossas conversas e você vai perceber que já tem bastante material. Uma ridícula sensação de perda me invadiu. Fiz força para não chorar ali mesmo, na frente dele. - O senhor quer dizer que essa é a nossa última conversa? Ele sorriu, docemente. - Não olhe para o muro, Gafanhoto, olhe para o horizonte. Dr. Sandro está no Livro Stress o Coelho de Alice tem sempre muita pressa, de autoria do Dr Marco Spinelli. Não deixe de saber mais sobre este fabuloso médico... Outras Matérias de Marco Antonio Spinelli [_OUTRAS_OBRAS_] | |